sábado, 2 de março de 2013

Sábado, 2 de fevereiro



Espertezas
Dia de Iemanjá e de Nossa Senhora dos Navegantes. Uma deusa da umbanda e uma santa católica. A coincidência não é casualidade. Está nas origens das crenças africanas em terras auriverdes. Coisa dos escravos e culpa dos padres jesuítas.
Embora muitos senhores de escravos, na época do colonialismo, permitirem – e até incentivarem – aos escravos a prática religiosa das suas terras de origem, a política religiosa predominante no seio do catolicismo exigia a conversão dos negros. Os coronéis escravocratas ficaram num dilema, entre as igrejas e os terreiros. A liberalidade religiosa fazia com que os escravos praticassem credos diferenciados, já que as tribos africanas tinham, generalizadamente falando, seus próprios deuses, ritos e liturgias, diferentes (não necessariamente divergentes) entre si. Essa diversidade fazia com que os escravos, geralmente oriundos de lugares distintos, não se entendessem nas senzalas, dificultando, assim, atitudes coletivas de desafio aos senhores, inclusive – e principalmente – as tentativas de fuga.
A ação dos jesuítas, de certa forma, facilitou uma espécie de unificação de credos afro. Surgiram a umbanda e o candomblé (e os seus derivados, logicamente) como seitas principais. Para não contrariar os padres, a prática dos negros escravos orientou as coisas para o sincretismo. Divindades africanas eram artificialmente associadas a santos católicos. Orixás viraram São Jorge, São Damião, Virgem Maria. E assim a procissão andava.
A esperteza dos negros driblou a severidade clerical e a estupidez dos coronéis.
Do lado católico é um pouco complicado entender a diversidade de culto à Virgem Maria. O credo romano entronizou divindades variadas para cultuar a mãe de Jesus Cristo. Assim temos, além da Nossa Senhora dos Navegantes homenageada hoje, a Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora... bem, deve ter mais uma porção. Serão santas diferentes?
As comemorações de hoje arrastaram milhares (seriam milhões?) de fiéis às ruas, aos rios e aos mares, em intermináveis procissões e colossais espetáculos do mais deslavado populismo religioso.
É a esperteza dos pastores dos rebanhos navegando nas águas da credulidade popular.

Nenhum comentário:

Postar um comentário