Espertezas
Dia de
Iemanjá e de Nossa Senhora dos Navegantes. Uma deusa da umbanda e uma santa
católica. A coincidência não é casualidade. Está nas origens das crenças
africanas em terras auriverdes. Coisa dos escravos e culpa dos padres jesuítas.
Embora
muitos senhores de escravos, na época do colonialismo, permitirem – e até
incentivarem – aos escravos a prática religiosa das suas terras de origem, a
política religiosa predominante no seio do catolicismo exigia a conversão dos
negros. Os coronéis escravocratas ficaram num dilema, entre as igrejas e os
terreiros. A liberalidade religiosa fazia com que os escravos praticassem
credos diferenciados, já que as tribos africanas tinham, generalizadamente
falando, seus próprios deuses, ritos e liturgias, diferentes (não necessariamente
divergentes) entre si. Essa diversidade fazia com que os escravos, geralmente
oriundos de lugares distintos, não se entendessem nas senzalas, dificultando,
assim, atitudes coletivas de desafio aos senhores, inclusive – e principalmente
– as tentativas de fuga.
A ação
dos jesuítas, de certa forma, facilitou uma espécie de unificação de credos
afro. Surgiram a umbanda e o candomblé (e os seus derivados, logicamente) como
seitas principais. Para não contrariar os padres, a prática dos negros escravos
orientou as coisas para o sincretismo. Divindades africanas eram
artificialmente associadas a santos católicos. Orixás viraram São Jorge, São
Damião, Virgem Maria. E assim a procissão andava.
A
esperteza dos negros driblou a severidade clerical e a estupidez dos coronéis.
Do lado
católico é um pouco complicado entender a diversidade de culto à Virgem Maria.
O credo romano entronizou divindades variadas para cultuar a mãe de Jesus
Cristo. Assim temos, além da Nossa Senhora dos Navegantes homenageada hoje, a
Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora das Graças,
Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora... bem, deve ter mais uma porção. Serão
santas diferentes?
As
comemorações de hoje arrastaram milhares (seriam milhões?) de fiéis às ruas,
aos rios e aos mares, em intermináveis procissões e colossais espetáculos do
mais deslavado populismo religioso.
É a
esperteza dos pastores dos rebanhos navegando nas águas da credulidade popular.

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